ESPERAR O PREÇO DA ENERGIA CAIR PODE SAIR CARO EM 2026
- Felipe Barroso
- 30 de abr.
- 4 min de leitura
Em um ano marcado por incertezas, uma decisão aparentemente prudente tem se mostrado arriscada para consumidores do mercado livre de energia: adiar a contratação esperando uma queda nos preços. Em 2026, essa estratégia pode se transformar em um erro custoso, sobretudo porque o sistema está cada vez mais sensível a choques de oferta que podem elevar o PLD de forma abrupta, como o setor conheceu em 2008.
O precedente de 2008: choque de oferta e teto de preço
Em 2008, o sistema elétrico passou por um episódio emblemático de desarranjo entre oferta e demanda. O modelo de planejamento NEWAVE considerava disponíveis diversas termoelétricas a gás natural, mas a Petrobras não tinha combustível firme para todas elas operarem ao mesmo tempo. Ao se deparar com essa falta de combustível, o ONS ajustou o cálculo de oferta e passou a tratar como indisponíveis algumas térmicas, retirando parte de sua oferta do deck de ofertas que alimenta o PLD.
Essa redução de oferta, combinada com hidrologia apertada, empurrou o Preço de Liquidação das Diferenças para o teto regulatório da época, que girava em torno de R$ 570/MWh em semanas críticas. Em prática, o preço saiu de patamares históricos relativamente moderados para o máximo permitido na regra, com saltos da ordem de 3 a 5 vezes em curto intervalo, mostrando que ajustes de disponibilidade de térmicas têm impacto imediato e forte sobre o mercado de curto prazo.
Volatilidade em 2024–2026: o PLD já vem em alta
O cenário atual combina fatores que aumentam a volatilidade e reduzem a previsibilidade do setor elétrico. De um lado, a hidrologia segue incerta; de outro, cresce a dependência de usinas térmicas movidas a combustíveis fósseis, cujo custo está diretamente exposto a tensões internacionais, como as que ocorrem no Estreito de Ormuz.
No centro dessa dinâmica está o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), referência do mercado de curto prazo, calculado com base em modelos operacionais que consideram nível dos reservatórios, custo de geração térmica e disponibilidade de oferta. Entre 2024 e 2026, o PLD médio avançou cerca de 84%, saindo de aproximadamente R$ 129/MWh para patamares próximos de R$ 236/MWh, com picos ainda mais elevados em semanas de maior aperto.
Para empresas que optaram por permanecer descontratadas ou seja, comprando energia diretamente no mercado de curto prazo isso significa exposição diária a essa volatilidade. Sem contratos de médio ou longo prazo, não há proteção contra altas abruptas, exatamente como se viu em 2008, só que agora encaixado em um novo patamar de preço médio.
O peso do Estreito de Ormuz e a nova exigência do ONS
A pressão se intensifica diante do cenário geopolítico. O Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de petróleo e gás, voltou ao centro das tensões internacionais. Qualquer instabilidade na região impacta diretamente o custo dos combustíveis fósseis, elevando o preço de operação das térmicas brasileiras.
Além disso, o Operador Nacional do Sistema (ONS) passou a exigir que térmicas dependentes de combustíveis fósseis apresentem planos de disponibilidade de combustível; se esses planos não forem comprovados, o ONS pode declarar essas usinas como indisponíveis nos modelos de formação de preço e retirá‑las da base de oferta de energia.
Na prática, isso reduz a oferta de energia de baixo custo na margem e pressiona o PLD para cima, repetindo em nova forma o dinamismo observado em 2008: menos oferta de térmicas disponíveis → curva mais vertical → maior sensibilidade a choques de preço. Em cenários extremos, como já ocorreu no passado, o custo da energia no curto prazo pode multiplicar em poucas semanas, chegando próxima ao teto regulatório vigente.
Teto regulatório de 2026 e o risco de entrar “no pico”
Em 2026, o teto de preço de energia no mercado de curto‑prazo, definido pela ANEEL, está em torno de R$ 703/MWh (PLD máximo autorizado), o que representa um limite bem acima do que o sistema via antes de 2008, mas ainda representando um piso de proteção para o mercado.
O risco para o consumidor parcialmente ou totalmente descontratado é entrar em contratos de médio/longo prazo justamente quando o PLD está próximo ou em patamares elevados, ou seja, pagar um preço médio alto para sair da exposição após já ter acumulado meses de custo acima do que seria esperado.
Diante desse contexto, a lógica de “esperar o preço cair para contratar” perde força. Isso porque o consumidor exposto ao PLD paga diariamente o preço corrente e pode acabar entrando em contratos precisamente nos momentos de maior alta, quando o risco já se materializou, como o setor descobriu à custa própria em 2008.
Impacto para empresas e o debate ainda atrasado
Para empresas com consumo intensivo de energia, o impacto é significativo. Em alguns casos, a variação mensal de custo pode superar reajustes típicos do mercado regulado, afetando diretamente a margem, a competitividade e o planejamento de caixa.
Apesar disso, o debate no setor ainda se concentra em ajustes metodológicos como o preço de curto prazo (Preço de Liquidação das Diferenças horário), regras de risco hidrológico e janelas de cálculo e pouco avança sobre riscos estruturais, como a dependência de combustíveis importados, choques geopolíticos no Estreito de Ormuz ou a possibilidade de retirada de oferta de térmicas por falta de combustível firme.
A ausência dessa discussão amplia a exposição dos consumidores, especialmente aqueles que, por confiar em uma queda de preço, não construíram portfólios de contratação com proteção adequada contra choques de preços de curto prazo, como o que se viu em 2008 e pode se repetir em novo patamar em 2026.
Conclusão: o risco de esperar pode ser maior que o custo de contratar
A conclusão é objetiva: em 2026, o risco de esperar pode ser maior do que o custo de contratar. Em vez de apostar exclusivamente na queda de preços, a gestão energética exige abordagem mais sofisticada, combinando: contratos de prazo mais longo e acompanhamento contínuo do mercado, com foco em cenários de Estreito de Ormuz, risco de falta de combustível e ajustes de disponibilidade de térmicas no modelo do ONS.
Em um sistema cada vez mais sensível a eventos externos, energia deixou de ser apenas um insumo operacional. Tornou‑se uma variável estratégica e tratá‑la como tal pode ser a diferença entre previsibilidade e surpresa no resultado financeiro, sobretudo para consumidores que não quiserem reviver a lição de 2008, dessa vez com o PLD partindo de um piso de preço bem mais alto




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