Energia: o custo invisível que está redefinindo a competitividade dos hotéis no Brasil
- Felipe Barroso
- 30 de mar.
- 4 min de leitura

A competitividade no setor hoteleiro brasileiro tradicionalmente é analisada sob três pilares: ocupação, diária média e experiência do cliente. No entanto, existe uma variável que vem ganhando relevância estrutural e que, na prática, já está impactando diretamente o resultado operacional: energia elétrica.
E o ponto crítico é que a maioria dos hotéis ainda não trata esse tema com a profundidade estratégica que ele exige.
Hotéis são, por definição, operações intensivas em energia. Funcionam 24 horas por dia, com alto nível de conforto térmico, aquecimento de água, lavanderia, cozinha e áreas comuns com grande circulação. Segundo o estudo “Examining energy usage patterns and sources in hospitality industry: A comprehensive analysis of over fifteen hotels worldwide”, de Barakzai (2024), o consumo energético em hotéis pode variar próximo de 305 kWh/m², podendo ultrapassar 500 kWh/m² em mercados menos eficientes.
Esse nível de consumo coloca os hotéis entre os edifícios mais intensivos em energia dentro do setor de serviços.
Do ponto de vista financeiro, o impacto também é relevante. A energia representa entre 3% e 6,5% dos custos operacionais totais, sendo frequentemente o segundo maior custo controlável da operação, atrás apenas de mão de obra. Mas o dado mais relevante não é o consumo médio, é a dispersão.
O estudo “Quantifying Behavior Driven Energy Savings for Hotels”, mostra que hotéis com características semelhantes podem apresentar variações extremas de consumo. A intensidade energética pode variar até quatro vezes, dependendo da eficiência da operação
Isso evidencia um ponto central: o problema não é apenas quanto se consome, mas como se consome.
A análise mais aprofundada do consumo dentro dos hotéis ajuda a entender onde está o peso desse custo. Aproximadamente 50% da energia está concentrada em sistemas de climatização, responsáveis pelo conforto térmico dos hóspedes. A produção de água quente pode representar até 15% do consumo total, enquanto a iluminação varia entre 12% e 20%, podendo atingir níveis ainda mais elevados em hotéis com grandes áreas comuns
Além disso, o consumo de água quente pode variar entre 90 e 150 litros por hóspede por dia, o que reforça o impacto energético contínuo dessa operação.
Ou seja, grande parte do custo energético está concentrada em poucos sistemas e, portanto, altamente gerenciável. No entanto, o que diferencia hotéis eficientes não está apenas na infraestrutura, mas na gestão.
Isso altera completamente a lógica tradicional do setor, que historicamente associa eficiência energética a CAPEX (troca de equipamentos, retrofit, automação). Na prática, uma parcela relevante do ganho está em gestão e disciplina operacional.
Apesar disso, a realidade do mercado brasileiro ainda apresenta distorções importantes.
Muitos hotéis migraram para o mercado livre de energia ou aderiram à geração distribuída com o objetivo de reduzir custos, porém sem uma estrutura adequada de gestão. Na prática, isso tem levado à contratação de modelos pouco eficientes, marcados por reajustes assimétricos, incorporação de encargos setoriais ao preço da energia, o que amplia indevidamente a base de cálculo do ICMS , cláusulas de “take-or-pay” que transferem risco sem contrapartida econômica e, principalmente, pela ausência de uma estratégia estruturada de consumo, que considere demanda, sazonalização e perfil de carga, entre outras.
Para o setor hoteleiro, esse problema é ainda mais sensível, pois se trata de um segmento de serviços que não se credita de ICMS. Ou seja, qualquer distorção na base de cálculo vira custo direto.
Além disso, hotéis que aderem à geração distribuída permanecem no mercado cativo e precisam respeitar prazos contratuais com a distribuidora para migrar ao mercado livre. Uma restrição que, na maioria dos casos, não é claramente explicada no momento da contratação.
O resultado, na prática, é uma falsa sensação de otimização. Muitas empresas acreditam estar operando de forma eficiente, quando, na realidade, apenas migraram para uma nova estrutura de custo, frequentemente mais rígida, menos transparente e com riscos mal distribuídos.
Esse cenário é agravado por um ponto crítico: a maioria dos hotéis ainda monitora energia exclusivamente por meio da fatura mensal. Esse modelo de acompanhamento é insuficiente e limita completamente a capacidade de gestão, pois não permite entender onde o consumo está concentrado, não possibilita comparar níveis de eficiência e, principalmente, impede a identificação de oportunidades reais de otimização.
Sem visibilidade, não há gestão. E sem gestão, não há eficiência.
Diante disso, a energia deixa de ser apenas uma despesa operacional e passa a ocupar um papel estratégico dentro da operação. Pequenas melhorias já são capazes de gerar impactos relevantes: uma redução de 10% no custo energético se traduz diretamente em ganho de EBITDA, enquanto reduções na ordem de 20% podem alterar de forma estrutural a competitividade do negócio.
E há um ponto ainda mais relevante: uma parte significativa desse ganho não depende de investimento, mas de decisão e gestão qualificada e permanente.
Para os gestores de hotéis no Brasil, a reflexão é objetiva. A pergunta não deve mais ser “quanto estou pagando de energia?”, mas sim se a estratégia adotada está protegendo ou comprometendo a margem do negócio.
Porque, em um setor onde cada ponto percentual faz diferença, a energia deixou de ser um custo invisível e passou a ser uma das principais alavancas ou riscos de competitividade.



Comentários