Crise do petróleo revela oportunidade energética brasileira
- Felipe Barroso
- 11 de mar.
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Quando guerras voltam a redesenhar o mapa da energia global, o impacto não demora a atravessar fronteiras. A escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Israel, Irã e o envolvimento direto dos Estados Unidos, recolocou o petróleo no centro das preocupações da economia mundial. Nos últimos dias, o Brent voltou a superar a marca de US$ 100 e chegou a negociar perto de US$ 119, no maior nível desde 2022, impulsionado pelo temor de interrupções no fornecimento global e pelo risco de paralisação do tráfego no Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo. Analistas já trabalham com cenários de US$ 120 a US$ 150 por barril caso a crise se prolongue e o bloqueio logístico se intensifique.
Esse tipo de choque não permanece restrito às telas de negociação das bolsas ou aos relatórios dos bancos. Em poucas semanas, ele aparece no diesel mais caro nas bombas, no frete que encarece tudo o que chega aos supermercados, no aumento do custo do transporte público e, inevitavelmente, no orçamento cada vez mais apertado das famílias. O padrão é conhecido: toda vez que o petróleo dispara, governos correm para conter o impacto com desonerações emergenciais ou subsídios temporários. É uma reação compreensível, e muitas vezes politicamente inevitável, mas que trata apenas o sintoma, não a causa estrutural da vulnerabilidade.
É justamente nesse ponto que surge a contradição brasileira. Enquanto o mundo se mobiliza diante do risco de escassez energética, o Brasil continua enterrando, todos os dias, uma de suas maiores fontes potenciais de energia renovável. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, da Abrelpe, o país gera 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, o equivalente a mais de 220 mil toneladas por dia. Grande parte desse volume tem alto teor de matéria orgânica, precisamente o tipo de resíduo mais adequado para a produção de biogás e biometano em aterros sanitários, biodigestores e estações de tratamento.
Esses gases renováveis poderiam ocupar um papel muito mais relevante na matriz de transportes e na indústria. O biometano, em particular, já é tecnicamente capaz de substituir o diesel em frotas cativas de caminhões e ônibus, além de poder substituir o gás natural em aplicações industriais. Em outras palavras, trata-se de uma energia doméstica, renovável e menos exposta aos vaivéns geopolíticos que hoje empurram o preço do petróleo para cima. Em vez de aproveitar esse ativo, o país segue tratando boa parte desse resíduo apenas como passivo sanitário.
A boa notícia é que essa tecnologia já funciona em escala comercial no Brasil. Hoje existem 9 usinas operando e outras 15 em processo de autorização na ANP, segundo dados setoriais divulgados pela Abrema e pela Abiogás. Juntas, essas plantas produzem cerca de 800 mil metros cúbicos de biometano por dia a partir de resíduos urbanos, volume que pode saltar para 2 milhões de m³ por dia ainda em 2026. Não se trata, portanto, de hipótese acadêmica ou promessa distante: trata-se de infraestrutura real, com projetos em operação, mercado formado e possibilidade concreta de expansão.
Os números ajudam a dimensionar o potencial. O aterro Bandeirantes, em São Paulo, acumulou desde 2006 cerca de 9,6 milhões de créditos de carbono certificados ao converter biogás em energia. Em Caieiras, também na Grande São Paulo, uma planta inaugurada em 2024 já entrega 70 mil m³ por dia de biometano, evitando a emissão de 43 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano. Em Seropédica, no Rio de Janeiro, outra unidade segue a mesma lógica. E empresas como a Gás Verde anunciaram planos para converter 10 usinas de biogás em biometano até 2028, com investimentos estimados em R$ 900 milhões. São casos concretos de uma agenda que já saiu do discurso e começou a ganhar escala.
Ainda assim, em escala nacional, esses avanços continuam tímidos e revelam o tamanho da oportunidade desperdiçada. Com o volume total de resíduos gerados anualmente, o potencial energético dos aterros brasileiros poderia suprir até 5% da demanda nacional de gás natural, segundo estimativas setoriais citadas por entidades do setor. No entanto, a maior parte dos cerca de 3 mil aterros e lixões espalhados pelo país ainda opera no modelo mais primitivo possível: permitir que o metano escape diretamente para a atmosfera, sem captura, sem aproveitamento energético e sem remuneração ambiental.
Esse é também um problema climático sério. O metano, principal componente do biogás não capturado, tem potencial de aquecimento global muito superior ao dióxido de carbono em horizonte de 100 anos. Assim, o Brasil consegue, com um único sistema mal desenhado, realizar uma tríplice ineficiência: desperdiçar energia renovável, agravar as mudanças climáticas e gastar bilhões de reais por ano para transportar e enterrar esse recurso subutilizado. A própria estrutura de gestão de resíduos no país continua baseada em coleta, transporte e disposição final, e não em valorização material e energética.
Por isso, a gestão de resíduos sólidos urbanos deveria ser encarada não apenas como questão sanitária, mas como infraestrutura energética estratégica. A experiência internacional mostra que isso é perfeitamente possível. Na Europa, cidades já transformaram resíduos em eletricidade, calor e combustíveis em sistemas integrados de “waste-to-energy”. Nos Estados Unidos, o biogás de aterros e resíduos orgânicos já abastece frotas de ônibus e caminhões em corredores logísticos específicos. O Brasil tem escala para ir além, porque reúne duas vantagens raras ao mesmo tempo: muito resíduo urbano com potencial energético e uma base agroindustrial capaz de expandir fortemente a bioenergia.
Esse segundo ativo também é impressionante. Estudos cartográficos da Embrapa indicam que o país possui entre 28 e 31 milhões de hectares de pastagens com indícios de degradação e potencial para conversão agrícola. Em termos práticos, são áreas já abertas, subutilizadas e com capacidade de receber cultivos energéticos, como cana-de-açúcar, sem necessidade de avançar sobre novas fronteiras de desmatamento. Em um país que já domina a produção de etanol e biodiesel, isso significa possibilidade concreta de ampliar a oferta de bioenergia com base em ativos que já existem.
O contraste se torna ainda mais agudo quando se olha a matriz energética nacional. O Balanço Energético Nacional mostra que a matriz elétrica brasileira atingiu 88,2% de renovabilidade em 2024. Ao mesmo tempo, a matriz energética total chegou a 50% de renováveis, consolidando uma posição singular entre grandes economias. Mas essa vantagem não se traduz integralmente na economia real, porque o transporte continua fortemente dependente de combustíveis fósseis. O Brasil, portanto, já fez boa parte da lição de casa na eletricidade, mas ainda não fez o mesmo no sistema que move mercadorias, ônibus e caminhões. É uma energia limpa no fio da tomada e fóssil nas rodas que movem o país.
A nova crise do petróleo deveria funcionar, portanto, como um grito de alerta. Enquanto o mundo se prepara para possíveis interrupções no fluxo energético global, o Brasil segue refém de decisões que priorizam soluções paliativas em vez de transformações estruturais. Enterrar mais de 220 mil toneladas de lixo por dia que poderiam gerar biometano para substituir diesel é mais do que uma falha técnica. É uma escolha política que custa caro ao país em segurança energética, competitividade econômica e responsabilidade climática.
O momento exige visão. Instrumentos como o RenovaBio e os Créditos de Descarbonização já mostram que é possível remunerar a descarbonização e dar previsibilidade a investimentos em combustíveis de menor intensidade de carbono. Atrasar essa transição significa condenar o país a reagir eternamente às crises externas, quando poderia estar construindo, com os recursos que já tem sob seus pés e em suas áreas produtivas, uma matriz energética mais soberana, resiliente e sustentável. A pergunta já não é técnica. A pergunta é se vamos continuar enterrando, literalmente, parte do nosso futuro energético ou se finalmente vamos transformá-lo em combustível renovável e liderança estratégica na transição energética.



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